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CRÔNICA: “Uma serenata, dois cachorros e uma guerra política”

Fomos em trio até a Granja Viana, na Grande São Paulo, para fazer uma serenata de aniversário para dona Renata, que completava 75 anos. Éramos três músicos vestidos em trajes inspirados nos anos 1930, levando violão, flauta, música e boas intenções. Mal sabíamos que encontraríamos naquela casa uma espécie de guerra civil doméstica.

De um lado, gente de esquerda. Do outro, gente de direita. E no meio, uma família inteira tentando sobreviver aos debates políticos que tinham o poder de transformar irmãos em adversários e uma mesa de jantar em plenário de Brasília.

As discussões eram intermináveis. Cada um defendia seu candidato como se estivesse defendendo a própria honra. E ninguém convencia ninguém. Só aumentava o volume, a irritação e a distância.

Até que a vida resolveu entrar no debate sem pedir licença. Um dos membros da família enfrentou uma doença grave. E, diante da possibilidade real de perder alguém querido, uma coisa estranha aconteceu: os argumentos perderam a importância. De repente, ninguém queria saber quem estava certo.

Foi quando caiu a ficha: político não merece fã-clube. Nenhum candidato vai devolver o tempo perdido numa discussão familiar. Nenhum partido vai abraçar você quando a doença chega. E nenhum discurso eleitoral vale uma lágrima derramada por alguém que amamos.

Foi nesse clima de trégua que chegamos para homenagear dona Renata, e a serenata começou, ou melhor… quase começou.

A casa tinha dois moradores particularmente interessados na nossa apresentação: Fredi, o cachorro, e Belinha, a cadelinha. Belinha simplesmente se apaixonou pelo seresteiro Fredi. Agarrou-se na minha perna e começou a fazer suas próprias… cachorrices obscenas. A sujeita não queria saber de repertório, política ou aniversário.

Era divertido para quem assistia. Para quem precisava tocar, cantar e manter a dignidade artística, nem tanto. Marcelo percebeu que a serenata corria sério risco de virar um espetáculo canino e precisou distrair Belinha em outro cômodo para que conseguíssemos continuar.

Fredi, o cachorro, por outro lado, parecia desconfiado de tudo. Olhava para nós como quem pensava: “Quem são esses três sujeitos vestidos desse jeito dentro da minha casa? O que querem? Vão me levar com eles?”.

Mas a música venceu. Teve dança, teve abraço, teve lágrima. E, claro, algumas indiretas políticas, porque certas guerras demoram mais para acabar do que outras.

Dona Renata recebeu 75 anos de vida em forma de música. E aquela família recebeu algo ainda maior: a lembrança de que o tempo é curto demais para gastá-lo odiando alguém por causa de uma eleição. Com certeza a maior serenata não tenha sido para dona Renata, mas para a própria família.

Uma serenata silenciosa para lembrar que, quando a vida bate à porta, esquerda e direita desaparecem, fica apenas o amor. E certamente esse o único lado que realmente vale a pena defender.

Por: Fredi Jon

(Conheça nossa arte da serenata – serenataecia.com.br / 11 99821-5788)

 

 

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