Era um sábado frio. Na noite anterior, um temporal havia castigado a cidade: postes caídos, ruas alagadas, semáforos apagados.
Recebi o pedido de dona Lúcia para cantar para dona Gertrudes, sua sogra, que completava 85 anos. Pensei em desistir diante de tantas dificuldades, mas, serenata para mim, nunca foi apenas cantar. Eu sabia da importância do amor contido naquela serenata. Peguei meu violão e fui.
Ao chegar, descobri que o prédio estava sem energia. Elevadores parados, corredores escuros, celulares fazendo o papel das lâmpadas.
Dona Gertrudes estava no sexto andar e não podia descer. A festa estava embaixo. A aniversariante, em cima. Olhei para as escadas e tive uma ideia:
— Pessoal, vamos subir. Eu começo a tocar e vocês aparecem depois. Vamos nessa?
E fomos. Seis andares, devagar, iluminados por celulares e pela vontade daquilo se tornar inesquecível. Diante da porta, comecei a tocar sua música preferida.
Do outro lado, ela ouviu os primeiros acordes. E aconteceu aquilo que tantas vezes testemunhei: a música encontrou uma lembrança antes de encontrar uma palavra. Ela apareceu emocionada. Atrás de mim, surgiram os familiares.
— Que bom… vocês vieram.
Sim. Nós tínhamos ido. Cantamos no corredor, iluminados por velas e celulares. Não havia decoração perfeita. Não havia energia. Havia gente, mas era tudo o que aquela noite precisava. Quando terminei, dona Gertrudes encostou o rosto no meu ombro:
— Eu esperei a noite inteira por isso. Mas, pensando bem… talvez eu tenha esperado oitenta e cinco anos.
Guardei aquela frase. Naquela noite, compreendi que, quando tudo se apaga, descobrimos o que realmente ilumina. Não são as lâmpadas. São as pessoas que permanecem.
Meu violão levou música, mas também levou presença, memória e amor. Talvez esse seja o mistério da música: ela não precisa clarear a escuridão. Basta encontrar, dentro dela, um lugar para a luz nascer.
Porque existem noites em que não precisamos que alguém acenda a luz, precisamos apenas que alguém venha nos encontrar no escuro.
Fredi Jon
(Conheça nossa arte da serenata – serenataecia.com.br / 11 99821-5788)


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