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ARTIGO: “A banalização da Medicina no Brasil”

A criação do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) reacende um debate sensível e urgente no cenário da saúde brasileira: a progressiva banalização da medicina no país.

Idealizado com o propósito de avaliar a formação dos egressos dos cursos de Medicina, o Enamed surge como resposta institucional a um problema estrutural mais profundo, que vai muito além da aplicação de uma prova nacional.

Nas últimas décadas, o Brasil assistiu a uma expansão acelerada e, muitas vezes, desordenada de faculdades de Medicina, especialmente na rede privada. Tal crescimento nem sempre foi acompanhado de investimentos proporcionais em infraestrutura, corpo docente qualificado e campos de prática adequados.

O resultado é a formação de profissionais que, em alguns casos, chegam ao mercado sem a preparação técnica e ética compatível com a complexidade do exercício médico. Nesse contexto, o Enamed é apresentado como um mecanismo de controle mínimo de qualidade, buscando aferir se o recém-formado detém os conhecimentos essenciais para o exercício da profissão.

Contudo, a simples existência do exame não resolve o cerne da questão. Há o risco de que o Enamed se transforme em mais um instrumento burocrático, incapaz de enfrentar as causas reais da precarização do ensino médico. A medicina não pode ser reduzida a índices estatísticos ou a resultados de prova. Trata-se de uma profissão que lida diretamente com a vida, a dignidade e a saúde das pessoas, exigindo formação sólida, contínua e humanizada.

A banalização da medicina manifesta-se quando o diploma passa a ser tratado como mercadoria, o estudante como cliente e o paciente como número. Nesse cenário, o médico é pressionado por metas, atendimentos em massa e vínculos de trabalho cada vez mais precarizados, o que compromete a qualidade da assistência e fragiliza a relação médico-paciente. O Enamed, por si só, não impede esse processo, mas pode servir como alerta institucional de que algo precisa ser revisto.

Portanto, mais do que avaliar o egresso, é imprescindível repensar a política de abertura e fiscalização dos cursos de Medicina ofertados, valorizar a formação ética e fortalecer o ensino público e de qualidade. Sem isso, qualquer exame corre o risco de ser apenas um paliativo diante de um problema sistêmico.

A medicina brasileira não pode ser banalizada; deve ser protegida como pilar essencial da saúde e da cidadania.

 

Michelle Wernèck

(Advogada especialista em Direito Médico e da Saúde)

@michellewerneck_direitomedico

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