DestaqueLeia TambémÚltimas Notícias

Memória, violência e o valor das rodas de conversa

Na 28ª Bienal Internacional do Livro em São Paulo, no Distrito do Anhembi, na zona Norte, em uma quinta-feira chuvosa e fria, com mediação de Adriana Zenizi, a escritora e poeta, Maria Vilani, destacou a forte relação entre essas histórias: Memoria, violência e o valor das rodas de conversas, e as experiências vividas ao longo do tempo.

Para ela, muitos aspectos do passado se perderam e parte dessas perdas foi necessária. No entanto, ressaltou que nem tudo deve ser apagado da memória.

“Nem tudo é um mar de rosas. Nossos ancestrais foram herdeiros da tortura e dos maus-tratos e, muitas vezes, reproduziam essas violências. Por isso, muita coisa precisa ser ressignificada pela contemporaneidade”, afirmou Maria.

No bate-papo com o público no estande da Prefeitura, ela citou como exemplo o uso da palmatória nas práticas educacionais do passado. Segundo a escritora, na bodega do seu Moisés, em Fortaleza, havia um avental pendurado com a carta do ABC de um lado, a tabuada do outro e, no centro, uma palmatória.

Para ela, esse tipo de prática deve desaparecer, mas não ser esquecida. As novas gerações precisam conhecer a historia, sem, contudo, serem submetidas à cultura educacional baseada em castigos e humilhações.

“Era comum o menino ser obrigado a se ajoelhar sobre caroços de feijão ou ficar cheirando a parede. Havia todo tipo de humilhação nas salas de aula e isso era aceito pelos pais. Essa prática precisa desaparecer, mas não deve ser apagada da memória. Precisamos ressignificá-la e não voltar a utilizá-la”, explicou.

Por outro lado, Maria defendeu a preservação das tradições e dos costumes que contribuíam para fortalecer os vínculos familiares e comunitários. Para ela, uma das melhores formas de manter essas referências é recuperar o hábito das rodas de conversa.

“Estamos perdendo esse hábito”, observou. Como exemplo, mencionou as mudanças na rotina das famílias. Atualmente, mesmo em casas com cinco integrantes, cada pessoa pode permanecer em um cômodo, diante de seu próprio televisor. Embora não considere isso necessariamente negativo, ela lamentou que a mesa de refeições esteja se tornando obsoleta.

“Cada um pega o seu prato e vai para um canto. Com isso, perdemos o contato direto, o olho no olho e o encontro”, afirmou.

Lembrou o relato de uma colega, professora e escritora, que cresceu participando de reuniões familiares ao redor de fogueiras feitas no quintal. Nessas ocasiões, os pais contavam historias sobre os antepassados, narrativas que contribuíram para a formação da escritora.

Na sua avaliação é fundamental preservar essas referências para que as pessoas não se percam ao longo da vida. “A vida só é bela se soubermos fazê-la bela. E, para isso, precisamos do outro”, declarou a escritora.

Ela ressaltou ainda que a presença do público é essencial para que o diálogo aconteça. “Que sentido teria eu estar aqui, sozinha, com este microfone, se vocês não estivessem presentes? Da mesma forma, você também não estaria falando sozinha aqui. Nós precisamos uns dos outros”, disse.

Ao concluir, Maria Vilani anunciou que traria o pai de volta à conversa. Falecido quando ela tinha apenas oito anos, ele, segundo contou, deixou ensinamentos que a prepararam para a vida, como este: “Minha filha, quando as coisas estiverem muito ruins, junte as fraquezas. Porque haverá momentos em que todos estarão fraquinhos. Junte essas fraquezas e você verá a força que terá”.

Por: Adriano Mendes

 


 

Comente Aqui